Anhangá - Terror Nacional


Capa: Anhangá, de J. Modesto - Giz Editorial.

Quando li esse livro, posso dizer que eu estava no “clima” de seu enredo. Em minha casa cercada por algumas árvores, e pássaros cantando num dia ensolarado que terminou numa tarde de tempestade chuvosa, pude sentir o ambiente que o autor buscou, com índios em uma floresta tipicamente brasileira. Mas não é preciso “estar no clima” para sentir o ambiente, pois J. Modesto consegue transportar o leitor para um lugar verdejante e cheio de mistérios sem muito esforço.

“Anhangá – a fúria do demônio” é um livro de terror cujo enredo se passa trezentos anos antes do descobrimento do Brasil. Um naufrágio traz ao Brasil um demônio que tem a habilidade extraordinária de controlar a água. Trata-se de um demônio elemental, um dos que conseguiu se livrar do domínio de um poderoso feiticeiro, e acabou por vir parar em terras brasileiras através de uma embarcação, onde o objetivo dos tripulantes era o de livrar-se da terrível criatura jogando-a bem longe de suas terras. Mas o demônio mostrou-se mais habilidoso, acabando por se libertar e vir parar em terras brasileiras.

A partir daí temos uma batalha sanguinária e alucinante entre índios e seus deuses aliados à magia nativa contra o terrível demônio, que além de se mostrar extremamente cruel, não poupa nem mesmo a vida da fauna local, num requinte de sadismo que se espalha em rastros de destruição por toda a floresta.

Os índios logo o chamam de Anhangá, que seria um deus do mal na cultura deles.

E entre essa batalha cheia de magia e surpresas, está Mohamed, um feiticeiro mouro, único sobrevivente do naufrágio, tentando conter o demônio com seus conhecimentos mágicos, que se aliam de forma extraordinária com a magia de um pajé da tribo local.

O autor consegue, de forma bem interessante, narrar os acontecimentos de acordo com o ângulo de visão de cada personagem. Quando você está em um lugar da floresta, achando que não vai saber o que está se passando em outro lugar, é surpreendido ao compartilhar da visão que outra personagem possui em um ângulo completamente diferente. E todos os ângulos se fundem, dando continuidade ao enredo que, na verdade, está se passando no mesmo ambiente. É a primeira vez que vejo isso sendo feito em um romance. É uma forma mais evoluída de se narrar, que vai além do “Enquanto isso em outro lugar...”, revelando um autor que soube inovar de forma criativa a forma de se narrar uma ficção.

Um livro com 240 páginas, cheio de ação, terror e magia, faz o leitor ter vontade de querer saber mais sobre os acontecimentos e fatos narrados, onde chegamos à conclusão de que se poderia ter mais páginas, pois ficamos cada vez mais curiosos sobre a origem do demônio elemental, os costumes indígenas e seus deuses, a magia nativa dominada pelo pajé e todo o ambiente fantástico de uma floresta esquecida há mais de trezentos anos antes do descobrimento.

Mas se por um lado tudo se passa muito rápido na aventura, por outro isso contribui para um romance sem muitas delongas, mais objetivo.

Um ponto fraco do livro é o erro constante da ortografia em diversas passagens. Por outro lado, a ideia central é bem elaborada e escrita com bastante criatividade. Porém os erros de concordância são muitos, e percebemos isso como uma falha: não houve revisão. Talvez tivéssemos um livro melhor se um trabalho de copidesque fosse implementado na obra, porque a quantidade enorme de falhas sugere que o original foi publicado sem uma análise prévia, como se estivéssemos lendo os rascunhos do autor.

Percebe-se em J. Modesto uma ideia nesse romance muita parecida com a de seu livro “Trevas”, em que seres rivais e antagônicos têm que se unir para enfrentar um único, terrível e poderoso demônio.

A obra nos passa uma lição que vale a pena destacar: tribos rivais formam uma aliança para enfrentar o mal, tal como já tinha sido combatido antes do naufrágio por cristãos que se uniram ao feiticeiro Mohamed. Um verdadeiro sacrilégio na época, mas necessário. E é exatamente essa a mensagem que o autor quer nos passar: mesmo com nossas diferenças temos que nos unir para enfrentar o mal, pois é justamente na discórdia que ele vence.

Anhangá é um livro que além de ser de terror é, acima de tudo, uma literatura fantástica que diverte o leitor do início ao fim. E seu autor, escrevendo de forma simples, facilita o entendimento da leitura, tornando-a acessível a todos.

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