A poesia gótica de karin

Atualizado: Out 1


Um livro de poesia deve ser lido mais de uma vez. Entender os versos é só a primeira fase, depois vem o entendimento da essência e somente após muitas leituras, o aprofundamento da alma em seus ritmos e vozes.


É diferente de um romance, em que raramente lemos novamente, por já sabermos a história e por quase nunca nos trazer algo de novo. Já a poesia, ao contrário, sempre traz algo novo em sua leitura, pois a impressão que temos é sempre a de uma nova revelação trazida em imagens e sentimentos. Um livro de poesia na cabeceira da cama é uma motivação, um pensamento latente a tocar nossa alma, quando a poesia admirada passa a fazer parte do que somos, e é por isso que muitas vezes decoramos um poema inteiro, como frases que para sempre levaremos em nosso profundo íntimo.


O livro “Há um demônio atrás da porta”, de karin poetiza (e ela assina assim mesmo, com letras minúsculas nas iniciais de seu nome), traz uma poesia sombria que, na primeira leitura, já

sentimos que a autora quer nos deixar uma mensagem. Na segunda, essa mensagem ganha vida, e percebemos que existem vozes por trás das palavras. A partir de então, quando ficamos mais familiarizados com o livro, podemos ouvir lamentos. E se não tomarmos cuidado, o silêncio da leitura é interrompido pela agonia de várias almas torturadas.



Há canção nos poemas de karin. Como uma caixinha de música nos trazendo ecos do além. Por isso, sugiro a leitura sob a luz de velas, porque é um livro para ser lido não apenas na penumbra, mas também em silêncio (longe das pessoas, e nunca dentro de um ônibus), pois somente assim captaremos o som que surge inicialmente tímido, para depois sermos possuídos pelas várias almas que dão vida a este artefato.


Nota-se uma autora abandonada, e um ambiente velho, antigo. Tanto que, se o livro viesse com teias de aranha, a decoração lhe cairia bem.



karin nasceu em Porto Alegre – RS (1969) e é bibliotecária. Aprecia o gótico desde a infância. Seus poemas ora são sombrios e melancólicos, outrora críticos e sarcásticos. São confissões... ou líricos engodos para intrigar e seduzir o leitor.


O poema SOLIDÃO reflete bem sua essência:

"Vagamos solitários

Pelas ruas silenciosas...

Mas nenhum silêncio é maior

Do que o de nossas almas."


Até sermos interrompidos em nosso silêncio pelos fantasmais suspiros de um melancólico fantasma no poema O FANTASMA.


Nota-se também uma singela rebeldia contra a religião. A autora não chega a ser radical ou violenta em seus versos, mas deixa transparecer sua aversão por aqueles que acreditam no vazio, como podemos ver em seu poema LUTO:


os santos são surdos e os deuses foram embora

Mas se queremos uma definição para karin neste livro, esta pode ser encontrada no poema NOVILÚNIO:

“No escuro,

Emotiva Lua

Chora a solidão

Das trevas.

No silêncio,

Solitária poesia

Incrusta estrelas

Em lúrido papel...”


O livro, com seu aspecto aterrorizante, consegue provocar arrepios em leitores que esperam exatamente por isso, como podemos ver no poema O QUINTAL. Eis um trecho:

“Bonecas mortas, estranguladas

Por toda a casa, a alindam

Numa festa mórbida, deformadas

Brincam as alminhas que brindam”


Por toda parte temos a impressão de que há em karin uma menina que foi possuída por um demônio. E esse passado parece que a persegue. Perguntei à autora o que a influenciou nesse sentido, e ela respondeu:

"Obviamente, eu sou a ‘esquisita’ da família e desde criança eu tenho uma afinidade com o sobrenatural e, se não bastasse, tenho TOC e características de personalidade borderline, então eu nunca estava realmente ‘sozinha’...

Por muito tempo eu tive fé cristã, minha família é católica, mas eu nunca acreditei realmente na mitologia, por isto eu lia tudo o que podia sobre religiões e desenvolvi um senso crítico (e um sarcasmo) gigantesco. A estética religiosa sempre me atraiu, e a figura da morte e do demônio são minhas preferidas. Toda a mitologia que as envolvem me fascina. Como quando eu ainda tinha fé, em nenhum momento Deus ou Jesus atenderam aos meus apelos (e acredite, eu já tive muita fé), eu acabei questionando tudo, sempre estudando (estudei história, filosofia, etc.), passando pelo agnosticismo até chegar ao ateísmo. Neste processo, acabei ‘abraçando o diabo’, porque ao final foi a luz (lúcifer...) que me arrancou de uma crença inútil e ignorante. Eu o encaro como um saber que, ao ‘me possuir’, me libertou, apesar de brincar com a possibilidade de sua existência real. Já a morte é a companheira de todo possuidor de transtorno mental com ideação suicida; sabemos que ela está conosco, sempre...

Alguns parentes e até mesmo alguns ‘amigos’ pensam que sou satanista, o que é constrangedor, pois revela sua ignorância. Mas meus únicos demônios são psiquiátricos, mesmo!




Para finalizar, um poema em especial aqui destaco. Quando comecei a ler o longo poema, senti no decorrer da leitura algo familiar. A essência desse poema lembrou-me de algo familiar na literatura. Porém, só pude realmente compreendê-lo quando cheguei ao seu final. Uma fantástica homenagem a Edgar Allan Poe, intitulada O CORPO DELA JAZIA, ALI. TÃO BELA ESTAVA QUANDO EU A VI...


Destaco também outros poemas incríveis de karin, que valem a pena serem lidos mais de uma vez: PALHAÇO, DORME NENÊ... OU A CUCA VEM PEGAR..., SENHORA, ENFIM... LIVRES!, FINITUDE (este lembra o poema ETERNA MÁGOA, de Augusto dos Anjos), VOZES (e este lembra o poema VIOLÕES QUE CHORAM, de Cruz e Sousa!), A ESCRITA, LIBERTAÇÃO, MENINA, e DOENTIA PAIXÃO.


Enfim, são tantos... e, cuidado leitor, ao virar as próximas páginas deste livro, porque uma porta para as assombrações de sua autora irá se abrir, e há um demônio atrás da porta...


À venda no site da Editora Círculo Soturnos:




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