A TURBA


“Se uma sociedade livre não pode ajudar a seus muitos pobres, também não poderá salvar a seus poucos ricos.” (John F. Kennedy)


No último andar daquele imenso prédio no Largo da Carioca (Rio de Janeiro), um empresário observava de sua monumental janela de vidro, a cidade trabalhando, cheia de vida, muito abaixo de seus pés.


Sua rotina diária de propostas, negócios, reuniões e planilhas – tudo que envolvia sua grande e rica empresa – já estava se tornando um mecanismo de processos automáticos e monótonos. Era um jogo de poder sujo e corrompido. Mas aquele grande empresário tinha prazer pelos jogos de poder, e somente algumas vezes tirava férias em seu iate nas praias de Búzios.


E quando viu aquela multidão desesperada tomando conta da cidade, e que em breve invadiria o seu prédio, sentiu uma necessidade de observá-la fora do normal. Como se um aviso dos mundos inferiores estivesse por vir.


E assim, ele ficou observando a multidão que se aproximava enquanto bebia seu uísque.


Logo abaixo, olhava com repugnância toda a cidade e seus pequeninos trabalhadores.


“Pobres vermes”, como ele os chamava. Correndo de um lado para o outro, como formigas trabalhando, sacrificando-se em suas vidas sofridas por um salário miserável.


Lá estavam eles, bem abaixo de seus pés, como excremento na sola de seu sapato de mil dólares.


Orgulhoso, observava toda aquela gente insignificante que, por estarem bem abaixo de sua vista, viviam no buraco porque esse era o fardo delas, com o terrível destino de servir a pessoas mais inteligentes e ricas como ele.


E com toda a sua elegância e riqueza, achava-se bem acima dessa gente, porque era um homem superior, protegido pelas alturas.


Aquela visão, para aquele empresário observador, também já era uma rotina, todos os dias, de seu escritório até seu luxuoso apartamento (também na cobertura, mas de um outro prédio), quando se deslocava em seu helicóptero particular. Tanto que já havia se acostumado a olhar as pessoas como se ele estivesse sempre por cima. Era observador, mas também muito orgulhoso.


Mas aquele dia ficaria para sempre guardado em sua memória. Não que isso fosse mudar alguma coisa em sua posição social, mas o fato é que aquela monstruosa multidão, de certa forma, estava se aproximando com a intenção de mudar sua vida.


E ela se espalhava pela cidade tão rápido, que ele ficou tomado pelo susto. Deixou seu copo de uísque cair sobre seu tapete de luxo, e ficou, paralisado, observando com seus olhos arregalados a enorme multidão engolir e escurecer a cidade em pouquíssimo tempo.


Ela se aproximava como um monstro, e invadia os primeiros andares de seu prédio trazendo uma sensação de medo, sofrimento e desconforto. Como se o que estava abaixo de seu prédio estivesse agora subindo pelos seus pés até devorá-lo por inteiro!


Aquele homem de negócios e poder, agora bastante inquieto, trancou-se em seu escritório e avisou à secretária que queria o piloto de seu helicóptero preparando-se para partir o mais breve possível.


A multidão doente e contaminada engoliu a cidade. E ele teve uma estranha sensação de que ela queria engolir e digerir seu prédio com ele dentro!


A enorme estrutura de concreto e metal já não parecia forte o suficiente para protegê-lo do vapor imundo, daquela essência nojenta que vinha do meio daquela gente insignificante, subindo e se firmando por sobre seus sapatos, como uma monstruosa doença consequentemente nojenta. Porque, para ele, tudo que vinha debaixo, vinha daquela gente torpe e vil; daquela gente nojenta e suada que ele abraçava, também suado, representando em seu teatro político toda a sua falsa iluminação gloriosa.


“Eles nunca me ajudaram em porra nenhuma, então por que eu deveria ajudá-los?”, assim ele pensava. E tratava a todos como porcos desconhecidos, humilhando o próximo com suas atitudes egoístas. Sem dar importância ao fato de que precisava deles, ou seja, de quem seriam os votos que o elegeriam? De onde viria o dinheiro que compraria os produtos e serviços de sua empresa? E quem seriam os fiéis que fortaleceriam o poder de suas igrejas evangélicas?


Os porcos. Pessoas de bom coração, ingênuas, que se banham na lama e ainda agradecem aos poderosos que os humilham.


Então ele viu a cidade virar uma enorme piscina vermelha, pessoas morrendo esfaqueadas, carros sendo vandalizados. As notícias não eram nada boas: casas de famílias ricas sendo invadidas por pessoas esfomeadas; pessoas pobres que agora culpavam os ricos por sua fome, já que dentro do lar dos ricos confinados nada faltava. E famílias inteiras eram assassinadas, mulheres sendo estupradas na frente de seus familiares. Tiroteios, explosões. O caos total.


Centenas de cadáveres infectados eram largados nas ruas da cidade, e o empresário pensou: “Não tem problema, os vermes estão em seu habitat natural, o lixo”.


Quando a pandemia perdeu sua força, o observador continuava seguro em seu apartamento na cobertura sem problemas, já que não precisava se locomover por entre as ruas repletas de doentes. Mas voando em seu helicóptero ainda podia sentir a presença amedrontadora que aquela multidão deixou no ar em sua passagem aterrorizante. E agora, no conforto de seu quarto, esse homem observador assiste às notícias... famílias inteiras desabrigadas, centenas de pessoas feridas, milhares de mortos no Rio de Janeiro e em São Paulo...


“Pouco”, ele pensa. Já que o problema todo vem dessa densidade populacional que só aumenta.


E assim ele trata de esquecer essas cenas de sofrimento, tentando dormir em paz, já que, mesmo com a morte de milhares de vermes, ainda existem milhares de outros vermes-clientes-fiéis enriquecendo suas filiais.


Após a pandemia, os dias prosseguem calmos e sem nenhuma revolução. Nenhum desejo de revolta é visível nas ruas. Mas como um vulcão, as pessoas guardam em silêncio toda a amargura de seus sofrimentos. Quando toda essa nódoa vai entrar em erupção, é apenas uma questão de tempo.


Apenas o que se percebe são pequenos pontos de explosão pelas cidades. Tentativas de linchamento contra ladrões e corruptos passam a acontecer esporadicamente. São sinais de que o vulcão está prestes a entrar em erupção. Tentam acalmá-lo com imagens programadas para amenizar sua fúria, fazendo as pessoas acreditarem que a justiça está sendo feita. E permanecem todos em temporária conformidade, assistindo ao modo de como se noticia quando um apresentador de televisão famoso morre, e vira notícia por no mínimo uma semana, e por outro lado a morte de crianças vítimas do abandono, trabalho escravo e miséria transforma-se em mera estatística. E aos poucos todos percebem que isso é uma tentativa de forçar o povo a acreditar que mortes por abandono, trabalho escravo e miséria não existem...


Os governantes permanecem os mesmos, e continuam iludindo as pessoas com uma paz superficial e falsas promessas, enquanto os ricos e poderosos permanecem indiferentes à dor dos miseráveis. Mas a semente da maldade já havia sido plantada com o sangue da turba enfurecida. Não era mais o desejo de resistência, e nem mesmo o de anarquia. O que se via nascer era uma nova era – uma época marcada pelo fim da esperança.


Dor, rancor, vingança. Ódio. O desejo de que o mundo se exploda. O fel maligno derramado sobre a alma dos que cansaram de perder tudo o que tinham, mesmo tendo tão pouco. Dia após dia perdendo tudo, até que isso virasse rotina e acabasse com toda a fé que possuíam na humanidade.


Os porcos miseráveis, como ele chamava, cercaram seu prédio, invadindo todos os apartamentos, e quem lá estava sofreu terrivelmente. Suas funcionárias foram violentadas, os homens foram pendurados em espetos e queimados vivos. A carne deles foi cortada e oferecida à força para as mulheres comerem. Após torturarem todos os funcionários, atearam fogo no prédio.


As autoridades nada puderam fazer para conter a turba furiosa e enlouquecida. Tudo aconteceu muito rápido e sem aviso. Como um processo automático de revolta conjunta, onde a comunidade ditava sua força de vontade. Sem diálogos. Apenas um mútuo entendimento, com poucas palavras de ódio sendo estruturadas por anos de sofrimento. Como um cão raivoso, a nova multidão não conseguia mais dialogar – eles apenas grunhiam furiosamente.


Não mostraram na televisão, pelo fato das cenas serem muito fortes, as gravações que os enfurecidos fizeram de um dono de franquias de lojas de utilidades para o lar, quando ele teve o corpo todo fatiado em pequenos pedaços, começando pelos dedos e depois braços e pernas. As feridas eram suturadas para que ele demorasse mais a morrer.


Bombas explodiram e centenas de pessoas evacuaram o prédio, parando nas ruas, de onde pessoas enlouquecidas aguardavam pelos sobreviventes, com uma recepção infernal para os abismos das loucuras humanas. Gritos desesperados de socorro ecoaram por toda a cidade, mas ninguém ouviu.


Das ruas, as pessoas recém-chegadas testemunhavam, assombradas, dezenas de prédios cumprindo o mesmo destino. E a multidão, como demônios em festa, estendia-se além da vista. Eram milhões de pecadores formando a maior legião de justiceiros jamais vista! Um cenário que comprovava o fato de que a baba raivosa escorre da boca furiosa de um monstro chamado Sociedade. Pessoas que, em vida, alimentaram anos de revolta perante as injustiças do mundo, dividiam agora o mesmo espaço com milhares de pessoas sórdidas ou sádicas. Quantos assassinos frios e gananciosos, pessoas violentas e vingativas, estavam torturando e sendo vítimas de tortura nas cidades, impossível contar.


À semelhança da dor que vinha da vida triste e sofrida dos miseráveis, o grito de pedido por misericórdia do empresário ao se ver no meio desse terrível pesadelo, ninguém também ouviu.


E o grito real, além de sua voz – aquele que vinha do fundo de seu coração – esse também, ninguém ouviu.


Ele estava condenado a morrer sozinho, no meio daquela terrível multidão doente e fedorenta.


Do mundo ele levou apenas sua consciência, e tudo o que foi em vida repercutiu perante o julgamento dos demônios. A natureza trouxe seu prenúncio de vingança, porque enquanto ela sangrava, a humanidade tapou os ouvidos para sua dor. A humanidade mostrou-se podre, contaminando-se com a própria sujeira que fizeram ao devastar o mundo em nome da ganância. O que se espalhava agora era o fruto dos restos jogados no lixo, para os que, por sobrevivência, comiam o lixo, e tudo o mais que pudesse satisfazer sua fome.


E em sua peregrinação pelas ruínas da sociedade o empresário egoísta permaneceu cego e surdo, porque vivia no vazio de sua crença mesquinha e material. Até seus últimos minutos de vida, ele permaneceu carregando consigo o desespero de seu vazio, que durante toda a sua vida estava disfarçado por um sorriso falso e artificial.


Chegou a acreditar, em alguns momentos, que poderia sobreviver graças à sua inteligência e superioridade. Mas aquele era apenas o começo de uma série de acontecimentos envolvendo dor e sofrimento.


Todos os dias, o velho empresário ouvia os gritos de milhares de pessoas em agonia. E isso não o deixava dormir por entre os becos e casas abandonadas por onde conseguia refugiar-se. Chegou a acreditar que estava no Inferno bíblico, onde os demônios o aguardavam sair de seu esconderijo. Até que, já cansado e sem forças para continuar fugindo, vários loucos o envolveram, puxando-o para o abismo caótico das torturas.


Agora sua alma também fazia parte do coro infernal que gritava suas dores para o mundo, para permanecer na agonia infernal de nunca ser ouvido.


E o homem permaneceu em agonia e dor em meio a bocas esfomeadas que o devoravam, sem nunca encontrar a salvação porque, mesmo com toda aquela gritaria ele ainda não conseguia ouvir os prisioneiros do sofrimento, dos quais ele agora fazia parte até seu corpo não suportar mais e morrer.


E no alto de seu antigo prédio o copo vazio de uísque foi esquecido sobre o tapete. Encharcado de sangue, nada mais lembrava o peso de seus sapatos de mil dólares. Tudo parecia tão leve, que por um breve momento, alguém de outro prédio próximo, jurou ver o copo se erguendo sozinho no ar. Pela janela enorme, agora sem vidros por causa da destruição, o copo voou até quebrar-se no chão. Havia sangue no local em que o copo caiu, e, se não fosse a chuva limpando a cidade da sujeira de sua humanidade corrompida, poderíamos jurar que o sangue desenhava no chão a forma perfeita do corpo de um homem.


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