Quando Ismália enlouqueceu...


Eu me lembro que anos atrás havia uma banda chamada Ismália, e que fiz um evento em que promovi o show dessa banda. O evento chamava-se Plêiade Noturna, e foi um dos mais incríveis eventos que consegui realizar. Com entrada franca, pessoas de diversas partes do Rio de Janeiro dançaram ao som Pós Punk da banda, além de participarem de um sarau de poesia, com exposição de arte e fanzines. Bons tempos...


O vocalista da banda fazia questão de explicar, no início das suas apresentações, que a banda sempre foi fortemente influenciada pela poesia, por isso chamava-se “Ismália”. Mas o fato é que a grande maioria do público não sabia associar o nome da banda com a poesia. Ou seja, não conheciam Ismália...


Para conhecer Ismália, vamos voltar no tempo, há cerca de pouco mais de cem anos, quando a poesia brasileira revelava não só Ismália, mas diversos outros poemas de Alphonsus de Guimaraens – um de nossos maiores poetas brasileiros.


Abaixo, o poeta aparece em uma pintura de um quadro do Museu Casa Alphonsus de Guimaraens - Rua Direita, 35, Mariana, Minas Gerais.


Alphonsus de Guimaraens

Quando uma pessoa que amamos morre, restam a lembranças que guardamos para o resto de nossas vidas. E na maioria dos casos, essas lembranças, de tão marcantes, influenciam o trabalho de artistas, deixando suas obras com um aspecto triste e sombrio. Tal foi o caso de Alphonsus de Guimaraens, marcado pela morte da prima Constança, a quem amava e que contava apenas 17 anos. Sua poesia é quase toda voltada ao tema da morte da mulher amada. Todos os outros temas que explorou, como natureza, arte e religião, estão de alguma forma relacionados àquele.



O poeta nasceu em Ouro Preto em 1870 e morreu em 1921, estudou Direito em São Paulo e foi durante muitos anos juiz em Mariana, cidade histórica, vizinha de Ouro Preto.


A exploração do tema da morte abre o poeta, por um lado, o vasto campo da literatura gótica ou macabra dos escritores da época do romantismo, recuperada por alguns escritores da época do Simbolismo, em que pertenceu Alphonsus de Guimaraens; por outro lado, possibilita a criação de uma atmosfera mística e litúrgica, em que abundam referências ao corpo morto, ao esquife, às orações, às cores roxa e negra e ao sepultamento.


O conjunto da poesia de Alphonsus de Guimaraens é uniforme e equilibrado. Temas e formas se repetem e se aprofundam, no decorrer de quase trinta anos de produção literária, consolidando uma de nossas poéticas mais místicas e espiritualistas. Porém, a dor da existência e as sensações de voo e vertigem presentes em sua poesia ganham certos limites, pois estão presas ao ambiente místico da cidade de Mariana e ao drama sentimental vivido na adolescência.


Os dois poemas de Alphonsus de Guimaraens que separei para o leitor, são, “Ismália” (obviamente), e “Uma noite só tua” (um dos que considero mais belos do poeta). Boa leitura!



Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...


Uma noite só tua

Carregas no teu bolso uma noite só tua.

Um poema? Uma canção? O rascunho de um grito?

Supões (por que o supões?) que te mudaste em mito.

Que não és (se já foste) e que a alma é fria e nua.

Como uma extensa praia, uma deserta rua.

Um poema? Uma canção? O rascunho de um grito?

Carregas no teu bolso uma noite só tua.

Vais levando contigo um tátil infinito.

Supões (por que o supões?) que não pertences mais

À terra, nem ao céu: o que quiseste, aflito,

É cinza só, e nuvem. Num silêncio cais

Tão forte e tão absurdo, que teu corpo flutua.

Um poema? Uma canção? O rascunho de um grito?

Carregas no teu bolso uma noite só tua.



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