Demônio Genético

Com Lasher, a escritora Anne Rice deu continuidade, anos atrás, a sua saga de maldições sobrenaturais e eróticas. Vamos relembrar?


Já li todos os livros das crônicas vampirescas de Anne Rice. Viajei com O vampiro Lestat e Entrevista com o vampiro, além de todos os outros de sua grandiosa obra. Mas de todos, o que mais gostei (e o que considero mais importante) é A Rainha dos Condenados. Neste encontramos a origem de seus vampiros, e é fascinante como a história que fez surgir todos os seus vampiros é contada! Esqueçam o filme! O livro é infinitamente melhor.


Mas de todos os livros, o que mais me impactou em Anne Rice foi uma obra que ela fez à parte, iniciada em A hora das bruxas. E é dessa saga que sinto-me na obrigação de compartilhar com vocês minhas impressões sobre Lasher.


Cuidado, mortais! Esse livro é a manifestação mais carnal e romântica de vampiros e criaturas assemelhadas que temos na recente literatura!


O meu exemplar é da editora Rocco, e tem 542 páginas. Lasher é a continuação de A hora das bruxas, a autora mantém a predileção por sagas e, como não poderia deixar de ser, por temas como erotismo, cristandade, terror, paganismo, fantasia e sangue. Tudo na medida certa. A memória do clã escocês de Donnelaith de A hora da bruxas continua presente, mas é sua descendência americana, a família Mayfair, o principal alvo desta vez. Nova Orleans, cidade com forte influência católica e negra ao Sul dos Estados Unidos, onde a própria Anne Rice nasceu, também se repete como cenário soturno.


Lasher, um espírito maligno que vive junto aos Mayfair nos últimos sete séculos, é o responsável pela proteção e enriquecimento da família. O fantasma se mantém ativo pela simples menção e pelo culto a objetos por membros do clã americano. O recurso possibilita que a narrativa passeie por entre igrejas góticas inglesas e modernos centros médicos. Sempre à procura do melhor momento para reencarnar através de uma das belas mulheres da família, o monstro, como o chama a própria Anne Rice, aguarda criar uma cepa de poderosos. Para isso, Lasher espera casar com algumas das beldades sulinas que trazem os sinais das bruxas. Ou seja, uma cabeleira ruiva, um sexto dedo nas mãos e uma arguta capacidade de vidência. Entre elas está Mona Mayfair, uma pré-adolescente cuja curiosidade é maior que o corpo e que acaba se tornando uma das vozes femininas mais marcantes na narrativa.


Talvez seja ela a esposa perfeita para Lasher. “As mulheres sabem tudo o que pode acontecer”, premoniza a jovenzinha a certa altura. É pela personalidade de mulheres como Mona que vêm à tona o encanto proporcionado pela tensão entre a delicadeza do trato de questões femininas e sua subsequente negação. Mas a história ganha força quando a neurocirurgiã Rowan Mayfair e seu marido, Michael Curry, sem saber, acabam dando vida ao fantasma. A partir daí, espalham-se entre as representantes do matriarcado, bruxas ou não, a culpa e o temor pelo seu destino. Neste jogo maniqueísta, uma vez mais Anne Rice – que cultiva um séquito de fãs (e um deles sou eu he he), que não raro se encontra com ela em convenções anuais – mantém seus meios-tons e meias-verdades. Afinal, os demônios são anjos caídos, traidores de sua própria natureza divina. Entre os inúmeros personagens ainda se encontram os alquimistas do grupo Talamasca, presentes em outros livros. Um dos achados de Anne Rice no livro Lasher é se aproximar da verossimilhança ao explicar a reencarnação de Lasher através de teorias e estudos dos meandros genéticos. Caso para especialistas em DNA, RNA e cromossomos.


A escritora se tornou muito mais conhecida depois da adaptação cinematográfica de seu primeiro livro, Entrevista com o vampiro, de 1976, traduzido para o português por ninguém menos que Clarice Lispector. Assim como seus vampiros e espíritos, maus ou não, Anne é uma personagem controversa. À época das filmagens, ela se indispôs com os produtores criticando a escolha de Tom Cruise para o papel principal. Antes mesmo do lançamento do filme, no entanto, ela se redimiu e mandou publicar extenso artigo na imprensa no qual dizia que Cruise, como o vampiro-mor Lestat, estava perfeito.


Anne Rice conhece as regras do marketing. Tanto é que em Lasher ela seguiu fielmente a receita de seus outros best-sellers. A narrativa cresce e decresce em tensão. Mas, apesar do inegável talento para a evocação do sobrenatural através de técnicas variadas, como o relato paralelo de cunho histórico, as 22 páginas finais negam o fôlego das 520 precedentes. A autora termina seu livro de modo abrupto, interrompendo justamente o elo de sedução e a complexidade da ação. Tudo se esvanece, como num passe de mágica. Mal dado, diga-se. Mas não há dúvida de que o leitor curioso e paciente, mesmo que não seja adepto do gênero, se verá enredado nas letras miúdas de Lasher e encantado pelas diabruras e mandingas de Anne Rice. E para os que, depois desse compêndio, queiram prosseguir na saga das bruxas, é bom avisar que Taltos, a terceira parte desta saga, veio para arrebentar! Mas isso já é um assunto para outra resenha...


Anne Rice

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