Lúcifer - o primeiro anjo


Com um texto de fácil leitura, Lúcifer – o primeiro anjo, ficção do brasileiro Marcelo Hipólito, é um livro interessante e, dependendo da crença de cada um, não deixa de ser também uma fonte instrutiva de conhecimento.

À semelhança de “Paraíso Perdido”, de Milton, mas muito longe de sua perfeição poética e criatividade, o Lúcifer de Marcelo Hipólito também nos convence de sua razão, mostrando que sua versão da história com seu relacionamento com Deus não deixa de ser também verdadeira.

Aqui, Lúcifer é o personagem principal, e começa a interagir na história como Samael, seu verdadeiro nome angélico. E de todos os anjos, Samael, sendo o Primogênito, foi o mais notável, como exemplifica o trecho em que ele trava uma batalha contra Mefistófeles, o lado negro de Deus:


Pois, se algum sacrifício feito em nome do Todo-Poderoso tornou-se digno de lendas, foi aquele de Samael Estrela da Manhã. Nenhuma criatura suportou maiores sofrimentos ou provações do que o Primogênito então.

Ao contrário das crenças que o apontam como um ser maligno por natureza, Samael na verdade era uma parte luminosa de Deus, e só veio a conhecer a maldade em Mefistófeles, o lado negro de Deus que numa luta pelo direito de existir no universo, acabou por libertar-se de Deus e ameaçar toda a existência de luz.

Samael foi o primeiro anjo a contestar as razões de Deus, pondo-o em guerra com milhares de anjos mais devotos, e unindo-se com seu próprio exército angélico na luta pela liberdade. Tal liberdade foi assunto de blasfêmia perante os anjos mais devotados a Deus, atingindo o ápice quando Samael fez seu pronunciamento revolucionário:


Que a verdade nos libertará. Seremos livres, se assim o desejarmos. Pois as correntes que nos prendem ao Criador existem apenas em nossas mentes. Rompê-las depende unicamente da vontade de cada um de nós. A verdade tão temida por Deus é que o controle que Ele exerce sobre nós é dado por nós mesmos. Se nos tornarmos maduros e sábios o suficiente para perceber isso, deixamos de ser escravos para virarmos mestres de nosso próprio destino. Descobrimos que a Criação é nossa para fazermos dela o que bem quiser. Deus torna-se irrelevante, irmãos. E nós nos tornamos deuses.

A história prolonga-se desde sua criação até o final dos tempos, em que, diga-se de passagem, Marcelo Hipólito soube tão bem conduzir. E vemos a passagem de Adão e Eva pela Terra, planeta tão amado por Lúcifer, motivo pelo qual o fez odiar ferozmente a humanidade por tomar aquilo que para ele era seu, corrompendo Lilith, a primeira mulher de Adão, e transformando-a no pior dos demônios que já existiu.


As partes mais emocionantes do livro são as narrações de Hipólito sobre os diálogos entre os anjos inimigos, principalmente entre Gabriel e Lúcifer, como vemos neste trecho:

“ — No dilúvio, Deus sacrificou meu filho e meu neto, porém, poupou a família de Noé, um varão de Lameque – explicou Gabriel. – Por consequência, todo homem que anda sobre a Terra carrega o sangue do Diabo nas veias.

— E isso revolta você – saboreou Lúcifer, com enorme prazer.

— Noé era temente a Deus, contudo, sabidamente impuro. Eu não compreendo por que Deus escolheu justamente ele como o novo Adão.


Lúcifer suspirou.

— Talvez... – pausou o inimigo antes de continuar. – Pelo que conheço de Nosso Pai, Ele acreditou que Sua criação fosse forte o suficiente para subjugar o Mal dentro de si. Ele deposita grande fé e esperança no Homem. E esse é Seu maior erro.”



Mas a maior revelação de Lúcifer, foi quando ele percebeu que jamais poderia vencer o Criador, já que sendo o Criador, todo o resto não passava de um imenso cenário de personagens com destinos já traçados. E isso foi percebido quando Jesus, filho de Deus, demonstrou possuir uma capacidade pertencente apenas a Deus: a adivinhação. Prevendo acontecimentos futuros, como se estes já tivessem sido escritos por Deus. E o mais revelador era que, apesar de todas as reviravoltas, tudo acontecia como o previsto, mesmo com Lúcifer tentando mudar o roteiro da história da Humanidade. Em sua conversa com Jesus, ele apenas reflete:

... E, se Deus possui tal poder, significa que eu tenho sido manipulado desde a minha criação. Pois Deus não teria outro motivo para fazer-me à Sua perfeição, sabendo que eu me tornaria o Diabo, se Ele não tivesse um plano previamente elaborado para mim.

O aspecto mais interessante do livro é o fato de que Lúcifer sempre foi o mais poderoso ser de toda a criação. E sozinho, derrotou o lado negro de Deus (Mefistófeles), o que acabou por corrompê-lo na essência do mal através do sangue negro de Mefistófeles que banhava seus ferimentos. Fato que não fica bastante claro, mas que percebemos nas entrelinhas de acordo com a narração.


As partes com mais ação do livro, são, sem dúvida, a batalha entre os anjos. Sendo a mais emocionante o desafio final entre Lúcifer e Gabriel:

“ — O que deseja, Lúcifer Estrela da Manhã? – perguntou Gabriel.

— Você acha que Deus o ama, Gabriel? – insinuou Lúcifer.

— Que tipo de pergunta é essa? – estranhou o Arauto.

— Uma pergunta direta, para uma resposta simples. Um mero “sim” ou “não” basta.

— Deus ama todos os Seus filhos.


Lúcifer sorriu, debochado.

— Pois, se Deus amasse-o, Gabriel, e realmente conhecesse o futuro, jamais o teria enviado a mim, sabendo o que estou para fazer.


Lúcifer sacou sua espada diretamente contra a garganta de Gabriel. Ele decepou o Seraphim de um único golpe. E esse foi o fim de Gabriel, o mais divino anjo da Criação”.



O fim do livro, e de toda a história da criação, é na verdade, uma passagem da existência ao vazio e deste para a existência. Em um desfecho sensacional de Hipólito, colocando o leitor em estado de meditação momentânea perante o lugar da humanidade na existência.

O livro foi baseado numa extensa e detalhada pesquisa baseada em descobertas arqueológicas e nos ensinamentos do taoísmo, islamismo, bramanismo, entre outras crenças e filosofias milenares. Mostrando que a lenda de Lúcifer – primeira criatura de Deus e único a compartilhar a perfeição do Pai – é muito mais antiga do que o Judaico-Cristianismo e o Islamismo; remonta a mitos ancestrais. O delicado equilíbrio entre o Bem e o Mal e a guerra eterna entre seus exércitos encontram-se em inscrições e vestígios arqueológicos de povos há muito desaparecidos, anteriores a babilônios e egípcios. Uma aventura épica e brutal de como o maior herói de Deus sucumbiu às trevas e resgata as origens de uma história perdida nas brumas do tempo, que desfaz a imagem atual dos anjos – serenos e doces – para guerreiros duros como o aço e implacáveis como a vontade de Deus.


A narração de Hipólito só peca no que diz respeito ao estilo, pois todo o livro parece uma descrição documentada da história do universo, baseada em pesquisas. Sendo raros os momentos de criatividade literária. O que o torna um meio termo entre ficção e narração historiográfica.

Lembrando que Marcelo Hipólito é co-autor de diversos contos de ficção em língua inglesa, publicados nos EUA, Reino Unido e Espanha, dentre os quais se destaca Eternal Grief, indicado para melhor conto de horror nos EUA em 2003 pelo Preditors & Editors Readers’ Poll. Esses contos encontram-se no livro de antologia Eternal Griel, lançado nos EUA em 2005 pela editora Lulu e, em 2003, pela editora Evilbooks. Além disso, Hipólito é diretor de três curtas-metragens de ficção, roteirista de cinema e produtor de teatro.

Hipólito nasceu na cidade de São Paulo, Brasil, e graduou-se em Cinema pela Universidade Federal Fluminense e em Administração pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, além de ser pós-graduado em Gestão da Informação e Inteligência Competitiva pela Universidade Estácio de Sá.


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