As Máscaras do Pavor – R. F. Lucchetti


Lucchetti resgata o terror antigo, mesmo quando o tema de seu livro é tão atual: a morte do cinema, dando lugar à barbárie e à corrupção.


Já faz algum tempo que recebi de R. F. Lucchetti seu livro As Máscaras do Pavor – o primeiro de uma coleção da Editorial Corvo –, devidamente autografado (o que me deixa extremamente honrado). Lucchetti é brasileiro, considerado o Mestre do Horror e pai dos pulps neste país. Escreveu e publicou ao todo mais de 1.500 livros, mais de duzentas histórias em quadrinhos, mais de vinte roteiros de filmes e centenas de programas de rádio e televisão. Foi roteirista de diversos filmes de José Mojica Marins (Zé do Caixão). Ganhou no Festival de Gramado o prêmio de Melhor Roteirista e o troféu HQ MIX na categoria Grande Mestre.


Seu livro, Noite Diabólica, antologia de contos, é considerado “o primeiro livro de Terror escrito no Brasil”, de acordo com Rudolf Piper, em seu O Grande Livro do Terror! (Editora Argos, São Paulo, 1978, pág. 38).



Lucchetti começa o livro exaltando o cinema, e é nítido o quanto ele busca através de seus personagens explicar, mesmo que metaforicamente, sobre a importância dos bons e velhos filmes de terror e suas vicissitudes. Por outro lado, um de seus personagens, chamado James Worner, chama a atenção por sua crítica mordaz, expondo o ridículo protagonizado por toda a indústria cinematográfica.


O livro de bolso, com pouco mais de cem páginas, possui leitura agradável e tem uma ilustração abrindo cada um de seus cinco capítulos. O conteúdo é bastante instrutivo, revelando um autor que conhece a fundo sobre cada tema abordado, parecendo, de forma bem divertida, um conjunto de arquivos com pesquisas – mesmo que breves – sobre autores e suas obras, peças de teatro e, principalmente, cinema.


Podemos conferir em suas páginas as aparições de Vincent Price, Christopher Lee, entre outros... Contando uma breve história de seus filmes para uma repórter que é a personagem principal de As Máscaras do Pavor.


Myrna Brent a repórterenvolve-se em uma trama assustadora que envolve Jack - O Estripador, o Fantasma da Ópera, o Lobisomem, e até o Drácula! Todos personagens de filmes de terror. A indústria dos cinemas é o tema deste livro, e a crítica àquilo que se tornou o mercado cinematográfico é uma constante. E damos razão ao mestre quando ele usa o terror antigo para combater os crimes atuais, cometidos contra a arte e todos que dela fazem parte. A fala de seu Fantasma da Ópera é bastante sugestiva: “Estamos de volta aos tempos da barbárie, em que imperam unicamente o interesse financeiro e a corrupção moral. A verdadeira arte deixou de existir, e a vulgaridade campeia neste mundo feito de aço e pedra.”. E as referências continuam, como podemos perceber na fala de seu personagen mais misterioso e mordaz: “O Cinema de Horror está em total decadência. Pura infantilidade é o que se vem fazendo ultimamente. Os filmes de Horror perderam todas as suas características, transformaram-se num espetáculo ridículo e deprimente. Não mais inspiram apreensão nos espectadores... Aliás, inspiram somente o riso e o deboche. Eu me abstenho de falar sobre essas fitas modernas que denigrem o gênero e que são produzidas por homens que só pensam no lucro fácil.”. Nota-se, aqui, uma referência às fitas VHS, já em desuso hoje em dia. Lucchetti é um escritor das antigas.


A forma como o escritor descreve seus personagens é fascinante. Ele sabe apresentar muito bem cada particularidade, e, mesmo com tantos personagens, fica fácil não se perder durante a leitura. A repórter Myrna Brent avança durante a história até os grandes estúdios de cinema da Star Pictures, já em decadência, pois não resistiram à concorrência da televisão. Aqui, temos mais uma reflexão sobre seu fim: “O Cinema, junto com seus astros e estrelas, estava desaparecendo. E, em seu lugar, estava surgindo a indústria do entretenimento, na qual tudo é destituído de arte e feito para ter uma duração efêmera.”. E é nesses estúdios que o terror se despede, junto com toda a sua arte e seus monstros, mas, sem deixar (obviamente) alguma vítima para trás, em seu rastro de sangue.


Os monstros que surgem no livro não possuem uma explicação que justifique seu envolvimento na história. Talvez nem precise. Todo o contexto da obra já sugere o que eles fazem ali. Estão voltando, como reflexos do passado. Sedentos por vida. Sabem que estão sendo esquecidos em sua real essência, para serem substituídos por imagens que vendem nos filmes. E por isso eles surgem, vez ou outra, para lembrar a todos que não fazem parte desse jogo. Querem sangue e morte; querem ser vilões, como sempre foram!


O que me deixou intrigado com seu livro foi não saber o que aconteceu com James Worner. Sumiu misteriosamente, sem explicações. E talvez fosse o único personagem a dar sentido em toda a história, dando respostas a toda série de aparições de monstros e assassinos, já que todos o acontecimentos giravam em torno dele. E o mistério fecha a última página de “As Máscaras do Pavor”; provando, assim, que esse era o elemento que faltava. Um bom livro de terror não será bom se nele faltar o mistério. E Lucchetti sabe muito bem disso, fazendo mais uma obra imortal na Literatura Brasileira de Terror.



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