As Irmãs da Misericórdia

“...e que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes.”

— Marquês de Sade


Beije-me, doce Maria, minha prostituta

Que nas ruas da cidade loucamente luta

Nessas noites psicodélicas, com sua dança,

Seu corpo vendido, atrás de alguma esperança.

Oferecendo o corpo como sacrifício;

Couro preto, sintético, pele macia

Cheirando a sexo, esse perfume que alivia

Os que procuram redenção no seu ofício.

Sua irmã, devota e amarga, chama-se Mortícia,

Uma freira que morde a língua com malícia

Para não se render à luxúria e ao pecado,

Quando peço perdão por tê-la desejado...

Mortícia, abençoe minha atroz alma sombria!

Sinto o toque de sua mão na minha cabeça,

Espero o fogo sagrado que me enobreça,

Mas por seu Deus, a mão de Mortícia é tão fria!

Maria... mulher moderna, vadia infernal,

Vive com ratos no lixo e prova do mal

Que esses ratos roem por ambição desmedida,

Com luxo e poder na pele – Maria ferida.

Clubes noturnos, perdição – Maria drogada.

Suas roupas pouco dizem quando ela está nua,

Sua dança nada embala nas camas da rua.

Resta a mensagem na pele, cicatrizada!

Mortícia... mulher reservada, santa e casta.

Para o caminho do sagrado ela me arrasta,

E triste, me encontro em sua catedral imensa

De onde vertem lustrais e irradiação intensa.

E entro, como um velho templário medieval.

Desejo ardentemente seu vinho sagrado

— Sangue! Poder em que mantenho dominado

Nosso cortejo de almas fúnebres do mal.

Destroços ao meu redor, lixo, fim do mundo.

Nessa desolação meu desejo profundo

Será me perder na canção dos enforcados

Para aceitar sua mão que acolhe meus pecados.

E com meus negros olhos, dizer: ― Nunca mais...

Aos pés da Santa Maria, minha salvação,

Reunindo sua luxúria e minha perdição,

Fazemos um pacto em nome de Satanás!

Mas agonizantes mortes ao meu redor

Lançam ecos, numa dor cada vez maior,

De suicidas, assassinos e pecadores

Que buscam salvação na cruz dos redentores.

Mas o crucifixo de Mortícia é infernal!

Queima ao menor toque na pele dos culpados,

E a dor é tanta, que somos arremessados

Ao purgatório da libertação final.

Porém, se das irmãs temos antagonismos,

Nas suas mortes seus destinos estão cruzados.

Porque ao redor de caveiras e simbolismos,

Há o mesmo pó sobre seus corpos enterrados...

Sobre o túmulo de Maria brinda um casal

Com taças de vinho, nus, amor sepulcral.

A profanação do sagrado tumular

Pela volúpia da luxúria sob o luar

E morcegos pelas ventanias demoníacas!

Criaturas das trevas que assombram cemitérios,

Seres contentes pela atração de mistérios

Que aceleram suas negras batidas cardíacas.

Sobre o túmulo de Mortícia um sonhador

Admira os anjos de pedra imersos na dor,

Até, no espanto, perder todos os sentidos

Quando a brisa noturna leva aos seus ouvidos

O pio da coruja — testemunha da morte.

Um ser das sombras, que assombra locais ocultos

Onde seus males perambulam como vultos.

Cada qual, no pulso, com seu profundo corte.

Ressuscitem, mortas irmãs da noite eterna!

Libertem-me dos gritos loucos da discórdia.

Porque vagando, meu espírito se alterna

Por entre a cruz e o fogo, sem misericórdia.


Poema do livro:

COMPRAR

8 visualizações
Circulo Soturnos Logo Coruja.png

SIGA-ME

  • Facebook
  • Instagram

© Sr. Arcano - SITE OFICIAL DO AUTOR - Todos os direitos reservados.