O menino que desenhava monstros



Uma resenha, para ter conteúdo, deve ser mais que uma simples apresentação do livro. Dessa forma, a obra que está sendo apresentada passa a ter uma leitura que ganha vida para o leitor. Acredito que a descrição de um livro fica melhor se for escrita – o assunto a ser questionado torna-se mais reflexivo e amplo, tal como a leitura deve ser. E “ganhar vida” é o tema principal de “O menino que desenhava monstros”, escrito por Keith Donohue, autor do best-seller A Criança Roubada (2007). Seus livros já foram traduzidos para mais de doze idiomas. Publicado pela editora Darkside, em edição de capa dura bastante caprichada, e com uma diagramação muito bem feita - completamente de acordo com o tema do livro - O menino que desenhava monstros tem como personagem principal o pequeno Jack Peter, um menino que possui a incrível habilidade de tornar real cada desenho que faz. Incluindo seus monstros. Um detalhe interessante do livro é a mensagem que o autor passa ao leitor que tem medo de sair de casa, tratando o lar como uma caverna em que personagens criados e sonhados para um mundo desconhecido jamais conseguirão entrar. Já no início, ele começa: “Casa dos sonhos. Era assim que sua mãe e seu pai costumavam chamá-la, antes que os problemas surgissem. O garoto não sabia ao certo se era uma casa na qual os sonhos se tornavam realidade ou se a casa em si era feita de sonhos. Houve um tempo em que essa expressão o deixava feliz, mas, em noites terrivelmente frias como aquela, os sonhos se transformavam em pesadelos, e os monstros debaixo da cama se agitavam na escuridão.”. Pode ser que eu esteja acostumado demais ao terror, mas considero a obra bem leve para o gênero - nada que assuste muito. A leitura é agradável, e a melhor parte começa a partir da metade do livro, levando o leitor a um bom clima de tensão até seu final surpreendente (e acredite, é mesmo um final surpreendente, e aqui vai um aviso: em hipótese alguma leia o final do livro antes de terminá-lo – isso estragaria completamente a sua leitura!). Em certo momento pensamos que tudo é possível, mas o autor nos puxa de volta do mundo de sonhos abordado na história, como se a leitura nos distanciasse da realidade. É também notável a descrição feita de um garoto com problemas de relacionamento, que, desde os sete anos, não lidava muito bem com o toque humano. Mas nada muito aprofundado, já que o tema central é a ficção fantástica. O livro quase se torna uma narração de histórias de fantasmas, mas percebemos que isso é deixado de lado para dar uma atenção maior aos mistérios por trás do estranho poder de Jack Peter. Porém, uma frase do livro que achei muito interessante, e que fala justamente sobre fantasmas, defende sua existência ao dizer: “Não tenha tanta certeza sobre as coisas que não pode ver. A mente conjura o mistério, mas é o espírito que fornece a chave.”. Essa frase já resume todo o mistério de “O menino que desenhava monstros”, que, como eu já disse, não é uma obra sobre fantasmas, mas sim do que achamos ser fantasmas. Na verdade trata-se de criaturas que são bem mais do que isso. Algo que também surpreende no livro é a capacidade do narrador (o livro é em terceira pessoa) de se colocar no lugar do menino, captando suas reações, como se realmente fosse um garoto, dando-nos a imagem de seus olhos tal como uma criança enxerga o mundo ao seu redor. Desenhando monstros, o menino estava apenas trazendo para o mundo real suas criaturas assustadoras. De onde os monstros vinham, essa é uma questão que fica no ar, não há exatamente uma resposta, e isso eu considero um ponto fraco na obra. Mas já quase no final do livro vem a revelação em forma de enigma: “O menino despertou de seus sonhos e o que quer que estivesse atrás da porta saiu caminhando pelo corredor e voltou para aquele inferno especial de onde nascem os pesadelos”. Costumo separar algumas folhas de papel em branco ao meu lado, e um lápis para fazer minhas anotações sobre minhas leituras. Dessa forma, escrevo a resenha. E, ao terminar este livro, eis que, sem que eu pudesse notar sua presença, surge ao meu lado minha filha de cinco anos com meu lápis, desenhando nos papéis...



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