O Anticristo

Atualizado: Abr 26

Venho aqui sugerir a leitura de um livro inacabado do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: O Anticristo. É um livro que rebate a ideia da religião cristã, assim como já foi rebatida por diversas publicações científicas e filosóficas a respeito da construção de igrejas como meio de exploração, e como meio de uso indevido das palavras publicadas por profetas antigos.


Já li e reli muitos livros deste filósofo alemão, e por isso eu não poderia deixar de falar brevemente sobre o autor e sua obra. Friedrich Willhem Nietzsche (1844 – 1900), um filósofo que se declara assistemático e que escreve em estilo de aforismos na maior parte de seus escritos, tornou-se uma referência para a Filosofia, pois a modernidade, que se formou desde o antropocentrismo e o racionalismo do Renascimento até o auge do Iluminismo, entra com seus valores absolutos, questionados pelo filósofo em evidência. Se a ciência suplantou a religião e a metafísica, como afirma Augusto Comte, o positivista do século XIX, transformou-se ela mesma em árbitro de tudo o que existe, porém, sua vontade de verdade foi sua falha. Na realidade, ela não conseguiu ocupar o lugar da religião e da metafísica, como pretendia o cientificismo, essa “religião da ciência”. Por isso tudo, Nietzsche fez-se crítico veemente de todos aqueles que se arvoram em donos da verdade e da própria verdade (a verdade em si), que não é senão uma interpretação, uma afirmação que se efetivou pelas relações de forças da pulsão cósmica plural. Fatos não existem por si, por isso não há fatos, assim toda a verdade deve ser posta em questão.



Nietzsche tornou-se um destruidor de ídolos e no seu O Anticristo, que escreveu em 1888 e que foi publicado somente em 1895, fez ruir, em sua obra, o cristianismo como base valorativa do Ocidente, pois apresenta uma crítica contundente contra a instituição cristã, para ele, diferenciada de Cristo. Mas, Nietzsche, não é um "cristão diferente", apenas indica que o cristianismo piorou metafisicamente um romântico que fora Cristo, admirando-o por vezes, como revela no aforismo 35, desfazendo equívocos. A luta do filósofo é contra o cristianismo como platonismo para o povo (entenda-se o dualismo de Platão), como negação desta vida em nome doutra no além, enquanto metafísica, enquanto uma redenção que não existe. O interessante é que, ao mesmo tempo em que critica o cristianismo, ele mostra uma outra perspectiva de Cristo. Mas, acima de tudo, o cristianismo é uma praga e uma visão que dominou. Por isso, a obra em destaque é um projeto de transvaloração de valores, em que a base de avaliação não seria mais cristã ou metafísica, mas a vida enquanto esta vida sem refúgios no além, esta vida enquanto vontade de potência ou relações de forças se efetivando, em contínua transformação na organização e desorganização. Destruição e criação, vir-a-ser.


É interessante notar que O Anticristo fazia parte de um plano de Nietzsche para a publicação de um conjunto de quatro livros que formaria “Vontade de Potência: Ensaio de uma Transvaloração dos Valores”, mas somente o livro que aqui consta ficara pronto. E a publicação, por sua irmã, de uma obra intitulada Vontade de Potência, como sendo de Nietzsche, foi pura fraude. Somente O Anticristo e os Fragmentos Póstumos, estes últimos relacionados em ordem por Colli e Montinari superaram definitivamente a fraude de um livro que o filósofo não escreveu, apesar de ter projetado.



O Anticristo foi o primeiro e único livro do projeto nietzscheano de uma transvaloração de valores. Nietzsche queria que os valores do cristianismo fossem colocados em questão e que outras perspectivas fossem possíveis sem essa dominação cristã. Como entender a obra nesse contexto em que aquilo pelo qual um valor passa a sê-lo precisa ser questionado? Qual é a base de avaliação que faz com que algo se torne um valor?


Em seu aforismo 19, ele diz:

(Quase) dois milênios decorridos e nem um único Deus novo!

Essa é a frase de Nietzsche contra o Deus judaico-cristão, metafísico, favorecedor de uma vida no além e, por consequência, desprezando esta vida. Ora, se o único e soberano Deus, criado pelos cristãos, fosse substituído por outro Deus que não fosse cristão, todo o cristianismo seria posto em questão.


Qual seria a nossa concepção de Deus? Comparando-se com a de Nietzsche podemos ver o quanto o filósofo é ousado em sua maneira de avaliar as coisas, como ele menciona no aforismo 18 de O Anticristo:

A concepção cristã de Deus – Deus como Deus dos doentes, Deus que tece como aranha, Deus espírito – é uma das mais corruptas concepções de Deus a que sobre a Terra se tem apresentado; representa até, possivelmente, o nível mais baixo da evolução declinante do tipo divino: Deus degenerado em contradição da vida em vez de ser a sua glorificação, e a sua eterna afirmação! Declarar guerra em nome de Deus à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus, essa fórmula para todas as calúnias contra o “aqui e agora” e para todas as mentiras do “além”! O nada divinizado em Deus, a vontade do nada santificada!...

Talvez, o que faltou em Nietzsche para tornar a sua verdade completa, foi uma revelação além da metafísica até então conhecida por sua filosofia. E essa revelação estaria na ciência oculta, pois o conhecimento apenas da ciência tal qual nos é revelada não bastaria. Mas isso é apenas uma suposição. O objetivo maior de sua proposta de mudança na filosofia é algo que nós podemos vislumbrar em uma frase sua, quando ele diz que “o cristianismo é um platonismo para o povo”, pois o cristianismo aderiu para si as ideias filosóficas de Platão para dominar o povo. Assim como fez com Dante, expandindo a ideia de Inferno, Purgatório e Paraíso.


Sabemos que o Deus cristão representa o monoteísmo, e para Nietzsche isso matou outras possibilidades divinas. O que nos leva a pensar sobre a tolerância religiosa, inclusive contra os chamados “pagãos”. Para os cristãos, a palavra “pagão” tornou-se uma maldição para quem assim é designado, ou seja, era pagão quem acreditava na existência de vários deuses (politeísmo), e assim os pagãos e todas as suas crenças foram combatidos, provando assim que não existe tolerância religiosa por parte dos cristãos.


Nota-se também em O Anticristo que o apóstolo Paulo foi muito questionado por Nietzsche. Como podemos perceber no aforismo 47 do livro:

Se nos demonstrassem esse Deus dos cristãos, ainda acreditaríamos menos nele. Na fórmula: “O Deus, tal como Paulo o criou, é a negação de Deus.”. Uma religião contra o cristianismo, que não toca a realidade em ponto algum, que se desvanece no instante em que a realidade entra por um ponto qualquer na esfera dos seus direitos, tal religião será, com direito, inimigo mortal da “sabedoria do mundo”, quero dizer da “ciência” ... Paulo chegou a reduzir a nada a sabedoria do mundo; os seus inimigos sãos os bons filólogos e médicos da escola alexandrina; e a eles faz guerra. E dessa forma, efetivamente não se pode ser filólogo e médico sem ser ao mesmo tempo anticristo. E que como filólogo se olha através dos “Santos Livros”, como médico através da decrepitude fisiológica do cristão típico. O médico diz: “incurável”; o filólogo: “charlatanismo”...

Entenderam, caros leitores? Procuremos semelhanças com os atuais tempos em que a medicina diz que é necessário se isolar até que se encontre uma solução ou tratamento melhor ou vacina para o vírus, e os cristão dizem que apenas a fé é o suficiente para curar; ou que chamamos um pastor de charlatão, e os cristãos dizem que para o Deus deles não importa a nossa opinião – a igreja é o local de cura para os doentes, aflitos e necessitados. Mas foi Paulo quem fundou a igreja, uma instituição material combatida por Cristo, cuja ideia é a de que o lar divino reside unicamente no coração humano. Constraditório, não?


Uma frase que mexe com o leitor de O Anticristo, de uma ou várias maneiras, e que ficou famosa é “O Evangelho morreu na cruz”. Não se trata de propor que Nietzsche reabilita Cristo, mas de mostrar os equívocos de toda uma institucionalização sobre o próprio. Ainda bem que há “liberdade de expressão”, não é mesmo? A bíblia tida como evangelho não condiz com a pregação do evangelho de Cristo, que desde sua morte foi usado como motivo para dominar os povos através da igreja.


Mas para finalizar esta minha resenha polêmica, devo dizer que o problema de postar-se como “dono da verdade” sempre foi algo terrível para o bem do conhecimento. Não se trata de relativizar tudo, porque cair-se-ia na mesma situação absolutizadora de pensar-se proprietário da verdade. O que nos leva a pensar sobre a seguinte frase de Nietzsche em outro livro seu, Humano, Demasiado Humano, aforismo 483:

Há já muito que fiz notar que as convicções são talvez inimigas mais perigosas da verdade que as mentiras.

Então, aqui recai sobre nós a questão definitiva: existe, de um modo geral, uma antítese entre a mentira e a convicção? Todo o mundo acredita que sim, mas em que é que todo o mundo não acredita? Relacionando essas questões com a criação de dogmas religiosos, penso numa frase de O Anticristo, que diz: “a humanidade gosta mais de ver gestos do que ouvir razões...".


Ora, se os dogmas religiosos são criações dos sacerdotes para dominar o povo com mentiras, que logo são sustentadas com fortes convicções, então podemos concluir que a verdade nunca existiu na religião cristã.




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