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Soturnos - Volume 3

Todo ano os poetas da Editora Círculo Soturnos – grupo de autores do site SOTURNOS.COM – se reúnem para publicar uma antologia com seus poemas. Começamos essa ideia em 2016, com a publicação do volume 1 de Soturnos, e em 2018 demos continuidade ao feito com o terceiro volume da obra, que trouxe novos autores ao projeto.

Foi uma grande honra participar da organização de mais um volume, e me surpreendeu a quantidade de participantes que não só se identificaram com a proposta de Soturnos, mas também a alta qualidade de seus versos. Ritmos, rimas e construções muito bem trabalhadas dando vida ao mundo sombrio da poesia maldita contemporânea.


Aqui os textos são uma espécie de "tapa na cara" daqueles que acreditam ser a poesia apenas um mundo de flores e cores. Contudo, às vezes a beleza pode vir de coisas feias ou tristes.

Por isso, dedico este livro a uma moça que nem sabe que eu existo. Eu a encontrei por acaso, dentro de um ônibus. Ela estava descalça, acompanhada do marido e de seu filho que aparentava ter apenas três anos.

Como era linda... uma ruiva com seus vinte anos de idade, esbanjando uma esperança que eu já não tinha. Para muitos, uma mendiga. Para mim, um ser de outro universo... completamente encantador! Muito diferente do universo que eu estava envolvido e me afogava, como o fundo de um poço lamacento e sujo. Difícil demais de se limpar, porque a sujeira fica impregnada em nossas entranhas, com seus vícios e gananciosas ideias que só pertencem aos medíocres.

Eu estava cansado de um dia inteiro de trabalho estressante. Tendo que aturar insultos de um patrão ignorante e orgulhoso – desses que se convencem de que são grande coisa, e não são merda nenhuma! E você, pelo bem dos seus filhos, decide aguentar tudo que for possível, mesmo que isso lhe custe a vida. Pois viver já não é uma opção. Você se torna um escravo, trabalhando apenas para pagar dívidas, e tendo todo o seu tempo consumido por rotinas que em nada lhe acrescentarão. E enquanto isso, os livros e sonhos se acumulam na estante empoeirada da vida.

De repente a linda moça de cabelos de fogo interrompe meus devaneios sem esperança. Levantando-se de seu lugar e dirigindo-se aos passageiros, ela começa a falar sobre sua missão de vida, escolha pessoal e caminhos que tem percorrido. E para minha surpresa, ela diz que é poetisa. Uma moça que vive da arte. Seus escritos e peças de artesanato são o que a sustentam.

Geralmente esperamos uma fala tímida desse tipo de pessoa.Na maioria das vezes com lamentos sobre a dificuldade da vida e pedidos de ajuda. Mas ela não! Seu discurso era repleto de alegria e confiança. A arte é o propósito de sua vida, e por isso ela não se lamentava durante sua apresentação. Para desapontamento da elite de trabalhadores que sobrevive às custas das migalhas dos realmente ricos, elite essa que sempre se alimenta do sofrimento e humilhação do próximo, não restando argumento para acusá-la de vitimista; restando, apenas, a inveja daquela paz de espírito que se pretende alcançar, mas jamais alcançarão porque são, por consequência social,oportunistas. Tão oportunistas que chegam a guerrear-se mutuamente.

A moça, então, inicia a leitura de um poema de sua autoria. Confesso que nesse momento meu coração começou a bater mais forte. Eu poderia me jogar pela janela que estava ao meu lado me refrescando com o ar puro da liberdade, não por desaprovação, mas sim porque já estava corrompido demais pela sujeira social e aquilo apertava meu coração. Como se, depois de muito viver no escuro, você já não suportasse mais a luz.

Sua poesia é de uma beleza arrebatadora. Ela rima, tem ritmos e construções que mais parecem uma canção dos anjos. Fala da realidade e de sua vida sofrida, e como uma lição, nos ensina como ser pessoas melhores.

Ah! Como eu queria lembrar agora de todas as suas palavras! E por mais irônico que seja, ninguém a filmou com o celular. Se fosse um acidente ou uma desgraça, talvez, teriam parado de teclar em suas redes sociais e tirariam fotos, filmariam. Mas para momentos únicos assim, ninguém quer perder o seu tempo. Parece que o mal humor une a sociedade. Ninguém repara na flor ao seu lado, na copa das árvores por sobre a praça. Ninguém. Mas quando ela terminou de ler o poema, todos a aplaudiram.

Sim, aquela linda moça descalça, de cabelos de fogo, vestida com roupas que ela mesma parecia ter feito, e levemente coberta de sujeira... foi aplaudida! Ela, que vive de arte e da poesia, que fala a voz do povo – esse foi o motivo dos aplausos. Ela não pediu dinheiro. Mas as pessoas levantavam suas mãos com moedas e notas de dois reais.Um dos passageiros até disse: “porra, sua poesia é foda!”.

Por um breve momento todos despertaram da anestesia de suas vidas, porque no íntimo de cada trabalhador dentro daquele ônibus, havia uma canção, ou melhor, uma poesia, idêntica à declamação daquela moça, com sofrimento e lágrimas. Mas que nenhum passageiro ali presente era capaz de expressar. O poder de traduzir todo esse sentimento com palavras estava nela, e seu olhar cheio de esperança foi algo tão difícil de suportar quanto o nó em minha garganta. Tanto que, mais tarde naquela noite, eu chorei.

Mesmo com tudo o que tenho, com tudo que conquistei profissionalmente em horas de trabalho numa empresa que só visa o lucro, percebi que eu não era nada diante dela! Ela é livre, e eu não. Porque fico esperando o dia em que vou abandonar tudo para realizar meus sonhos, talvez apenas passear pela serra e pescar já me satisfaria. Mas as correntes da sociedade me prendem em nome da sobrevivência capital. Um condenado, que teve suas feridas expostas por aquela alma livre e repleta de poesia.

(...)

E é por isso, moça misteriosa, que este livro é dedicado a você. Eu não a conheço e nem sei o seu nome. Mas após aquela noite passei a observar melhor as flores ao meu redor, depois de tanto tempo cego. E toda manhã passo pelo parque e olho para cima, para a copa das árvores, e me deparo com um céu verde. Percebo assim que ainda haverá beleza enquanto continuar existindo um céu verde, que tape nossa visão do céu poluído e cinza das grandes cidades.

Eu só queria lhe dizer, moça, que eu também escrevo e também sou poeta. Tornei-me escravo do sistema, trabalhando apenas para pagar meus vícios, dívidas e ostentações que não possuem valor algum, porém naquela noite você me fez chorar, e, por incrível que pareça, acreditar ainda mais na poesia!


E foi assim que nasceu esta antologia. Soturnos – Volume 3, não tem a minha participação como um dos autores, mas tem a inspiração da poesia, que todos os dias luta por sua sobrevivência. Diversos autores de todo o Brasil estão nesse livro, e eu recomendo a leitura de seus versos nesta obra linda e soturna.


SINOPSE: Terceiro volume da Antologia Anual de Poesia Maldita Nacional Contemporânea, com poetas contemporâneos revelando, através de seus versos sombrios, canções que embalam suas almas no mundo decadente da poesia maldita. Mundo este que é a realidade degradante em que vivemos, poluída pela sujeira de sentimentos. Contudo, neste livro a poesia ainda respira através de seus autores, mostrando que não está morta - ela se adapta aos novos tempos, mesmo que sejam tempos que não a valorizem.Todo ano um novo volume desta antologia é lançado, sempre com poetas brasileiros. E neste terceiro volume são apresentados novos escritores, além dos principais autores colaboradores da obra.


EDITORA: Círculo Soturnos.

ANO: 2018

PÁGINAS: 164

ISBN: 978-85-540962-0-5

TIPO: Impresso.

ONDE COMPRAR: soturnos.com/loja

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