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Uns poemas, Outros poemetos

Ao folhear as páginas de “Uns poemas, Outros poemetos”, a primeira sensação que tive foi de surpresa.

Esse livro, publicado em 2015, traz Tânia Souza no prefácio – uma escritora com quem tive um breve contato no passado, e quase conheci pessoalmente quando eu estava morando no Pantanal (Tânia é de Mato Grosso do Sul). A prefaciadora é professora e escreve poesia, o que, de certa forma, foi a escolha perfeita para apresentar a obra de karin para o leitor; não apenas por isso, mas também porque ela é uma autora que possui um gosto semelhante por escritos sombrios.


Se fosse apenas por esse “encontro” com uma personalidade que fez parte da construção literária nacional, eu consideraria apenas uma coincidência necessária, mas a biografia de karin poetisa na orelha do livro traz um registro que me faz voltar no tempo; para uma época em que a produção literária de terror e horror estava no auge entre os autores do meio underground. Hoje, poucos conhecem esses escritores, e muitos nunca tiveram contato com seus nomes e livros. É que a sociedade atual está focada demais no estrelismo criado pelas redes sociais e seus influenciadores, e naquele tempo só o que existia era o Orkut, ainda em ascensão.


Karin menciona que publicou em sites como “Estronho e Esquésito” e “Sombrias Escrituras”. Ora, sabe-se que o “Estronho” foi um importante projeto que publicou dezenas de escritores desde 1996, tornando-se editora após o desligamento voluntário de um autor da editora Multifoco, que mais tarde viria a se tornar editor de uma das melhores editoras deste país. Eu mesmo participei de uma antologia de poesia publicada pela Estronho, e considero essa casa uma das melhores iniciativas dentro da literatura nacional de terror e horror. E quanto ao site “Sombrias Escrituras”, eu era o seu único administrador. Mantive por alguns anos essa marca na Internet, que divulgava os fanzines bimestrais de mesmo nome, onde eram publicados poemas e contos de diversos autores nacionais. Uma revistinha bem simples, toda em preto e branco, com matérias diversas sobre música, literatura e artes em geral, mas principalmente sobre literatura. No site, havia tudo isso e mais um pouco, e karin estava lá, com seus poemas sombrios dando ainda mais vida ao projeto. Um tempo que se foi, pouco antes do surgimento do Facebook, e vários dos maiores autores nacionais que já conheci são dessa época. Foram injustamente esquecidos. E hoje, quando vejo diversos influenciadores digitais que compõem o chamado Bookstagram, exaltando personalidades literárias atuais como se fossem as únicas e as primeiras, alguns, inclusive, gabando-se por saberem tanto da literatura brasileira, mas que desconhecem totalmente nomes como Tânia Souza, Vanessa Bosso, Carmelo Ribeiro, Marcelo Amado, Alessandro Reiffer, Carolina Mancini, Susy Ramone, Giulia Moon, Nazarethe Fonseca, J. Modesto, Nelson Magrini ... e tantos outros! Sinceramente, penso que vivemos em uma realidade paralela.


E sobre karin poetiza, ela sempre esteve entre nós, e sua obra é obrigatória para aqueles que buscam na poesia um trabalho de qualidade dentro do gênero sombrio. Autora de “Há um DEMÔNIO atrás da porta” (Ed. Círculo Soturnos), karin é bibliotecária. Foi contemplada com o 1º lugar no Prêmio LiteraCidade de Poesia em 2013, recebeu menções honrosas no Prêmio Lila Ripoll de Poesias em 2010 e 2013 e foi premiada em diferentes edições do Concurso de Poesias Expresso das Letras.


Neste livro, “Uns poemas, Outros poemetos”, cujo teor é o assunto desta resenha, a autora apresenta poucos poemas, e bem curtos. Há declarações de amor para seu marido, J.L., em vários poemas no decorrer da obra. E entre esses poemas românticos, destaco o “Tu, Oceano”. Pelo próprio nome, já compreendemos a busca da autora por um sentimento profundo. Ela mergulha dentro de sua alma, várias vezes, à procura de seu amado, e lá ele está, bem próximo dela, confundindo-se com ela mesma.


Mas nem só de romantismo vive a poesia de karin. Ela sabe tocar o coração do leitor com suas garras demoníacas! E sempre deixa um espaço para reflexões do espírito. O poema da página 22 (“A filosofia da Morte”), é tão direto e curto em sua filosofia, e eu gostei tanto, que decidi fazer um quadro com esse texto! Eis os seus versos:


“só um tolo indaga à Morte
sobre o fim da vida;
a Morte não filosofa,
a Morte apenas finaliza.”

Outro poema que gostei muito foi o “Marcas” (página 28). Góticos lerão estes versos e se identificarão com essas marcas:


toque em minha pele
há marcas
de assombrações
das quais não consigo
livrar-me
sinta-as, remexendo-se
escoriando sensações
que machucam
minhas marcas
nada mais são do que
um silencioso depoimento
de minha sombria
e solitária agonia

Não podemos subestimar o poder das palavras. Um leitor comum pode não ter a capacidade de expressar o que sente ou o que representa sua existência, mas a poesia consegue traduzir sentimentos e dizer quem somos. E se existe algo que a poesia precisa, é de silêncio. A alma precisa de silêncio para encontrar sua inspiração, e, quando esse silêncio é quebrado, encontramos o que é descrito no poema “Suicídio” (página 37). Uma distração trazida pela tevê interrompe um momento de inspiração, mesmo que essa inspiração, para karin, seja sombria. Isso me lembra a frase de Schopenhauer, que diz: “O barulho é uma tortura para o homem de pensamento”.


Certa vez escrevi um poema tentando explicar uma frase que eu mesmo criei, para justificar às pessoas o meu silêncio, pois ninguém entendia. Essa frase dizia: “Meu silêncio é um mundo na paz da noite”. Eu nunca consegui fazer as pessoas entenderam essa justificativa para o meu comportamento, tão calado e esquivo. E hoje, bastante tocado pela leitura desse livro, venho compartilhar um poema que traduz exatamente o que eu queria explicar, publicado na página 47.


Minha guia

confronto o grito
com a mudez
interrogativa
sombria
como o abraço da noite
que liberta os sonhos
e conforta o dia
sou a lágrima
chorada, sofrida e fria
o desconforto da dúvida
a (in)certeza da sina
que me guia...

Sim, muitas vezes a resposta está na poesia. E um livro simples e curto como esse de karin poetiza pode trazer respostas para nossas dúvidas. Às vezes o autor nem tem essa intenção, porque escreve inspirado em sentimentos profundos e sem compromissos, mas a poesia é poderosa, ela vem e invade a alma.


O livro foi publicado pelo projeto Literacidade, tem 60 páginas, e foi um presente da autora. Portanto, não creio que seja mais encontrado à venda. O próprio site do projeto não está mais no ar. Mas para aqueles que querem conhecer a poesia sombria de karin, deixo abaixo o link para compra de um livro seu, bem mais amplo: “Há um DEMÔNIO atrás de porta”, publicado pela editora Círculo Soturnos.


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