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Poética, de Vanessa Musial

Esta resenha foi escrita ao som de "The Book of Secrets" (Loreena McKennitt)


Conhecer novos poetas nacionais contemporâneos é sempre um grande prazer, principalmente quando tais poetas nos apresentam livros que refletem seus grandes talentos. E na arte da escrita, Vanessa Musial faz um belo artesanato com seus versos rimados.


“Póetica” é um livro leve e gostoso de ler, com vários sonetos que nos trazem enriquecimento cultural pelas suas explicações em relação aos temas abordados, em sua maioria com influências da literatura clássica.


Dividido em cinco capítulos (O Amanhecer, O Amor, As Trevas, O Sonho, e A Morte), cada qual com seus poemas casando perfeitamente com a proposta sugerida por seus títulos, o livro é de um capricho especial para a organização de seus textos. Esta é a terceira edição, ampliada com novos poemas.


O talento de Vanessa para as rimas bem organizadas é bastante visível, e ela sabe organizar as linhas de modo que todas se encaixam nas páginas. Fica gostoso de ler dessa forma, e a canção flui num ambiente florestal e cheio de magia. A ilustração da capa representa muito bem o que encontramos na leitura.


Muitos versos de Vanessa Musial me chamaram a atenção, e deles podemos extrair alguns ensinamentos. E quando se trata de poesia, sempre existe algo escondido na entrelinhas. Não é fácil decifrar os versos, mas percebi algumas mensagens da poetiza, entregues ao leitor com grande criatividade. Por exemplo, no poema “Éden” (página 65), notei que, através de uma simbologia, a autora nos remete aos perigos e delícias venenosas que rodeiam as moças, representando o conflito interior entre amor e pecado; pureza e tentação.


Um dos meus poemas preferidos nesse livro é “Máscaras” (página 77). Fiquei encantado com a forma como Musial fala sobre a falsidade das pessoas. Uma representação poética com seu ritmo envolvente na alma dos leitores.


Outro poema que destaco é “À Fumaça” (página 84), em que a poesia (e somente a poesia pode trazer essa linguagem) traduz de forma misteriosa e envolvente, a viagem sobrenatural, além dos sentidos, da chama da vida para o além. Através de uma vela, o espírito se apaga, mas não sabemos se morre, porque sua chama faz uma viagem para uma dimensão desconhecida. Transcrevo os versos que fecham o poema para o infinito:


“E misteriosas são tais oscilações
Poéticas em sua dança pro além,
Evaporando pr’a além de suas combustões...”

Percebemos que, de forma implícita, há uma filosofia por trás de seus versos, tentando explicar seus próprios mistérios poéticos. Essa revelação nós notamos de imediato quando a poesia de “Poética” começa a despargir tudo o que se esconde em suas sombras, como se estivéssemos numa floresta cheia de segredos. E a obra, vez ou outra, parece sugerir que tudo passa, como um sopro, e que em cada segundo mora um pedaço de eternidade, como podemos notar no soneto “À Eternidade” (página 130), que diz nos dois primeiros versos da segunda estrofe:


“Porém o que eternamente irá durar?
Tudo que ora vive é tão efêmero!”

Agora, se tenho um poema preferido nessa obra, sem dúvida é o “A Visita Tardia” (página 140). Vanessa, tiro o meu chapéu pra você nesse poema! Que soneto maravilhoso! É introspectivo, revelador. Um texto que impressiona por sua simplicidade e, ao mesmo tempo, capacidade de se caracterizar com um duplo sentido. Aqui, as interpretações ficam por conta do leitor, que não sabe se a autora refere-se a uma personagem morta, ou se a própria morte vem lhe fazer uma visita. Sua metáfora revela o sentimento sombrio da inevitabilidade do fim.


O livro também apresenta poemas que a autora fez em parceria com outros poetas, e um dos mais fascinantes é “Cântico Fúnebre” (página 154). O poema mais longo da obra, em parceria com Samuel Balbinot. E para fechar o livro com um de seus recados (sempre poéticos), Vanessa Musial nos presenteia com um soneto que lembra o termo “moral da história”. E assim nos sentimos bastante satisfeitos com a leitura. E é assim que transcrevo abaixo os últimos versos de “Poética”, para fechar esta resenha com a mesma sensação que tive ao terminar a leitura deste livro maravilhoso e que eu recomendo a todos que apreciam poesia:


“Ora eu creio no Poder das Palavras,

Que podem ser usadas gentis por finalidade

Ou cortar fundo como espadas;


Minha visão que outrora foi tão cética

Mal podia crer nesta Verdade:

Como a vida, por si só, é Poética!”.




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