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Vinho é poesia

"O vinho é poesia engarrafada"

— Robert Louis Stevenson

No folclore do Baixo Alentejo existe uma lenda muito antiga, que diz o seguinte:


"Logo após o Dilúvio Universal, um homem, sua esposa, seu irmão e sua cunhada - dois casais com numerosa prole - habitavam uma cabana feita de paus e colmo.

Não sabiam ainda cultivar a terra. Os homens caçavam e as mulheres colhiam do que crescia espontaneamente. Cereais e árvores frutíferas e arbustos, como a vinha, lhes serviam.

Em Setembro, os roxos cachos eram fartos. E aquelas donas primordiais provaram de seus bagos e os acharam doces e saborosos. Fartaram-se deles e os deram a seus filhos. Guardaram uma parte do que apanharam e a reservaram num tronco oco, tampado com uma madeira fina encimada de pedras pesadas.

Esqueceram- se disso. Passadas semanas, o tampo frágil cedeu ao peso das pedras, que caíram sobre os cachos, esmagando as uvas. Tempo depois, uma das mulheres foi recorrer ao vasilhame para depositar nele outras colheitas. Atestou, com espanto, em seu fundo, um líquido rubi e os bagos esmagados, com os engaços secos. Bebeu-o por curiosidade, achando-o bom.

Chamou a cunhada que também dele tomou. De gole em gole, ficaram tontas e sem equilíbrio, mas tomadas de uma alegria interior sem explicação, que as levou a gargalhar. À noite, quando regressaram os maridos da caçada, espantaram-se com o estado das rudes mulheres.

Deram- lhe para provar e eles, embevecidos, igualmente o aprovaram."


Havia sido feita uma grande descoberta, é que aquele líquido proveniente das uvas que havia fermentado, era vinho. Estava descoberto o vinho.


Depois disso, este só veio a aperfeiçoar-se com o processo de o fabricar, como narra Manuel Joaquim Delgado em "A Etnografia e o Folclore no Baixo Alentejo".


Os portugueses, do camponês mais simples ao aristocrata mais empedernido, amam o vinho inquestionavelmente. Estrabão - historiador, geógrafo e filósofo grego, do século anterior à Era Cristã - já mencionava em seus escritos sobre aquele Portugal Celta, o cultivo do vinho na região do Douro, consumido nos banquetes familiares.


Desde então, a bebida estaria presente não apenas na fala sábia do povo, que bebe o vinho que há, mas também em grande parte da fina poesia portuguesa, de Camões aos poetas contemporâneos, passando pelo grande Fernando Pessoa. Afinal, como na frase atribuída a Robert Louis Stevenson, "o vinho é poesia engarrafada", tantos outros poetas portugueses de grande quilate citaram e enalteceram o vinho em seus versos. Não caberiam aqui. São assunto para buscas intermináveis e conversas bem regadas.


E, se a paixão por literatura for tamanha, comparável ao zelo pelos vinhos, que sigamos os conselhos do jornalista e obscuro poeta Cardoso Marta, em "Vinhos e Livros":

"Da vida sábia e sem perda
Melhor exemplo não topo
Que um livro na mão esquerda
E na mão direita um copo.

Com igual fervor constante
Tua mão colide e agrega
Bons livros, na tua estante
Bons vinhos, na tua adega!"

E, como se abre um exemplar de um, se abre um exemplar de outro, com o devido propósito de sorver seu conteúdo até o fim.


De que nos valem livros sem serem lidos e vinhos sem serem bebidos? Assim como fizeram os poetas, observe bem o que cada vinho nos faz dizer. E dedique-lhe algo escrito no ar, perdido para sempre, ou compartilhado com quem tem a graça de ouvir palavras inebriantes.


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